Ansiedade

Ansiedade na adolescência: como reconhecer e como ajudar seu filho

Para pais e responsáveis: como separar a ansiedade esperada da idade de um transtorno, o que ajuda em casa e quando buscar ajuda.

Resposta rápida

Sentir ansiedade na adolescência é esperado: provas, amizades e a aceitação do grupo pesam muito nessa fase. O sinal de alerta é quando ela é intensa demais, dura semanas e começa a tirar algo da vida do seu filho, como a escola, os amigos ou o sono. Nessa idade, a ansiedade costuma aparecer como irritação, queixas no corpo e evitação, e não como medo dito em palavras. Em casa, costuma ajudar acolher o sentimento, mostrar confiança e, aos poucos, parar de fazer pelo adolescente o que a ansiedade pede para evitar. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é o primeiro tratamento indicado. Se ele falar em se machucar ou em morrer, procure avaliação no mesmo dia. Em risco imediato, ligue 192, do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). Para conversar, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende pelo 188.

Este texto começa pelo que é esperado da idade e por como a ansiedade costuma se disfarçar no adolescente. Depois trata de duas situações que preocupam muitos pais: a recusa em ir à escola e o celular. Por fim, mostra o que os pais podem fazer, quando buscar ajuda e como funciona a terapia.

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O que é esperado da idade

Na adolescência, é natural se preocupar com notas, com o corpo, com o que os outros pensam e com o futuro. O serviço de saúde britânico (NHS) lembra que é nessa fase que a ansiedade social fica mais comum: o medo de ser julgado pelos colegas ganha peso. Um pouco disso faz parte de crescer.

O que muda o quadro é a medida. Fontes oficiais de saúde do Reino Unido e dos Estados Unidos convergem em três sinais de que vale buscar avaliação:

  1. Intensidade: a reação é forte demais para a situação.
  2. Duração: o problema dura semanas, e não alguns dias.
  3. Prejuízo: a ansiedade está tirando algo da vida dele, como escola, amigos, sono ou lazer.

A diferença entre ansiedade comum e transtorno, em qualquer idade, está em Ansiedade normal ou transtorno?.

Os transtornos de ansiedade são comuns nessa fase. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), atingem cerca de 4% dos jovens de 10 a 14 anos e 5% dos de 15 a 19. No Brasil, um estudo de 2013 e 2014 ouviu quase 75 mil estudantes de 12 a 17 anos. Cerca de 3 em cada 10 relataram sinais de sofrimento mental comum, como ansiedade, tristeza e queixas no corpo. Esse estudo mediu sintomas por questionário, e não diagnósticos. As meninas relataram esses sintomas com mais frequência que os meninos: cerca de 38% contra 22%.

Saber o que é esperado ajuda. O difícil é que, no adolescente, a ansiedade nem sempre se apresenta com esse nome.

Sinais de ansiedade na adolescência

Muitos adolescentes não dizem “estou ansioso”. Os sinais que os pais costumam perceber, segundo fontes de saúde dos Estados Unidos e do Reino Unido, são estes:

  • dor de barriga, dor de cabeça ou cansaço frequentes, sem causa médica encontrada;
  • desculpas para não ir à escola, a festas ou a atividades que antes fazia;
  • queda das notas e dificuldade de concentração;
  • sono difícil ou pesadelos;
  • irritação e explosões de raiva;
  • muitos “e se…?” antes das coisas acontecerem, e pedidos repetidos de confirmação;
  • uso de álcool ou outras drogas para enfrentar situações.

A Academia Americana de Psiquiatria da Infância e da Adolescência (AACAP) faz um alerta: o adolescente com ansiedade pode parecer só quieto e obediente, e o problema passa despercebido. Também vale o contrário: nem todo adolescente irritado está ansioso. A irritação pode ter muitas causas, e só uma avaliação separa uma coisa da outra.

Na prática, duas perguntas aparecem mais: e se ele não quiser ir à escola? E o celular?

Quando ele não quer ir à escola

Os especialistas chamam de recusa escolar a dificuldade de ir à escola ou de ficar nela por causa de sofrimento emocional, o que é diferente de matar aula escondido. Ela tem um padrão conhecido. Segundo a AACAP, as dores de barriga ou de cabeça aparecem de manhã, muitas vezes somem quando o adolescente fica em casa e voltam na manhã seguinte. Ela é mais comum nas fases de transição, como dos 11 aos 14 anos, e costuma estar ligada a ansiedade, depressão ou bullying. Por isso, vale perguntar com calma o que está acontecendo na escola.

Deixar o filho ficar em casa alivia a ansiedade naquele dia, mas tende a tornar a volta mais difícil. O caminho costuma ser um retorno gradual, combinado com a escola e, quando preciso, com acompanhamento psicológico. A AACAP afirma que a maioria volta à escola com sucesso quando o problema é tratado cedo e há um plano consistente.

A outra dúvida que mais chega dos pais não acontece na escola, mas no quarto, à noite: o celular.

E o celular?

A pesquisa sobre redes sociais e saúde mental dos adolescentes é dividida. Grandes estudos encontraram associações pequenas entre o uso de tecnologia e o bem-estar. Uma revisão das academias de ciência dos Estados Unidos concluiu que a pesquisa não permite afirmar que as redes causem, na população, mudanças na saúde dos adolescentes. Ao mesmo tempo, a principal autoridade de saúde pública dos Estados Unidos alerta que ainda não há provas suficientes de que as redes sejam seguras para crianças e adolescentes.

O efeito mais claro é sobre o sono. Numa análise de 20 estudos, usar celular ou tablet na hora de dormir se associou a cerca do dobro da chance de dormir pouco. Só ter o aparelho no quarto à noite já se associou a um sono pior. Sono ruim e ansiedade costumam se alimentar, como mostramos em Como controlar a ansiedade. Uma medida simples é deixar o carregador fora do quarto à noite.

Na prática, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda, de 11 a 18 anos:

  • até 2 a 3 horas por dia de telas e videogame, sempre com supervisão;
  • nenhuma tela de 1 a 2 horas antes de dormir, e nunca virar a noite jogando;
  • telas fora das refeições.

Mais do que contar horas, vale olhar o jeito de usar: comparação constante, bullying online, madrugada nas redes. A autoridade de saúde pública americana sugere um plano de uso em família, com horários e lugares sem tela. Vale combinar essas regras junto com o adolescente, em vez de só impor. E o exemplo dos pais conta.

Entender os sinais é metade do caminho. A outra metade é o que fazer com eles.

O que os pais podem fazer

Acolher e confiar ao mesmo tempo

Diante da ansiedade de um filho, o impulso natural é protegê-lo. Os pesquisadores chamam de acomodação as mudanças que os pais fazem para poupar o filho da ansiedade. Alguns exemplos: responder dez vezes à mesma pergunta, falar no lugar dele, deixar faltar, mudar os planos da família ou ficar no quarto até ele dormir. Tudo isso alivia na hora, mas mantém a evitação.

Uma análise de vários estudos encontrou uma ligação moderada entre acomodação e ansiedade mais grave, sobretudo quando quem relata são os pais. A relação pode valer nos dois sentidos: a ansiedade mais intensa também leva os pais a acomodar mais.

A alternativa é uma postura de apoio, que junta duas coisas: aceitar o sentimento e mostrar confiança de que o filho dá conta. Por exemplo: “Eu sei que isso está te deixando muito ansioso. E eu sei que você consegue enfrentar, um passo de cada vez.”

Esse caminho tem evidência. Um estudo americano acompanhou 124 crianças e adolescentes de 7 a 14 anos. Nele, um programa feito só com os pais teve resultado tão bom quanto a TCC feita com o próprio filho. O programa se chama SPACE, sigla do seu nome em inglês, Supportive Parenting for Anxious Childhood Emotions. Os pais aprenderam a responder com apoio e a reduzir, aos poucos, as acomodações. O estudo não incluiu jovens acima de 14 anos. Para eles, o resultado ainda precisa ser confirmado.

Enfrentar aos poucos, juntos

Em vez de evitar sempre ou forçar de uma vez, combine pequenos passos com o seu filho. A SBP sugere perguntar “como você resolveria isso?”, em vez de resolver por ele. Também ajuda explicar que a ansiedade é uma reação natural do corpo e manter a rotina, como orienta o NHS. Conversar sem o celular por perto e ouvir sem julgar ajudam o adolescente a continuar contando.

O que costuma atrapalhar

  • Tranquilizar o tempo todo. “Vai dar tudo certo”, repetido vinte vezes, alivia agora e aumenta a dependência da certeza.
  • Resgatar. Falar por ele, ligar para a escola por ele ou buscá-lo mais cedo impede que aprenda que dá conta.
  • Forçar de forma brusca, sem conversa. O NHS alerta que isso pode piorar a ansiedade e a relação.
  • Desqualificar. Frases como “isso é frescura” ou “é só não pensar” fazem o adolescente parar de contar.

Nada disso é culpa dos pais. A ansiedade tem várias causas, e o estilo dos pais explica só uma parte pequena dela, como mostramos em O que é ansiedade. Mas algumas atitudes ajudam e outras mantêm o problema, e essas dá para mudar.

Quando o apoio em casa não basta, é hora de buscar ajuda.

Quando buscar ajuda e como é o tratamento

Procure avaliação quando a ansiedade é intensa, dura semanas e atrapalha a escola, as amizades, o sono ou a família. A SBP considera tristeza ou isolamento por mais de 15 dias um sinal para procurar avaliação. O caminho pode começar pelo pediatra, pelo médico de família na Unidade Básica de Saúde (UBS) ou direto por um psicólogo que atenda adolescentes. Os detalhes estão em E se for uma criança ou um adolescente?, e as opções gratuitas, em onde procurar sem pagar.

A TCC é o tratamento psicológico com mais evidência para ansiedade nessa idade. Na ansiedade social, a diretriz britânica do National Institute for Health and Care Excellence (NICE) recomenda 8 a 12 sessões de TCC, considerando a participação dos pais. Se o seu filho não quiser ir à terapia, você pode buscar orientação para você, como explicamos em O que os pais podem fazer.

Existe um melhor remédio para ansiedade na adolescência?

Não existe um “melhor remédio” para ansiedade em adolescentes. Quando há indicação, quem decide é o médico, de preferência um psiquiatra da infância e da adolescência, em geral junto com a terapia. Os remédios com mais apoio dos estudos para ansiedade nessa idade são antidepressivos. Nos Estados Unidos, a bula desses remédios traz um alerta para jovens com menos de 25 anos. Neles, pode haver aumento de pensamentos suicidas no início do tratamento e nas mudanças de dose. O risco é pequeno, mas exige atenção. Por isso, o acompanhamento médico próximo faz parte do tratamento, e o remédio nunca deve ser iniciado nem interrompido por conta própria. Os resultados dos estudos com adolescentes estão em Tratamento para ansiedade.

O que os pais ficam sabendo na terapia

Segundo o Código de Ética Profissional do Psicólogo, do Conselho Federal de Psicologia, o atendimento regular de um adolescente exige a autorização de pelo menos um dos responsáveis. O mesmo código protege o sigilo: os pais são informados do que é estritamente essencial para promover medidas em benefício do filho, e não do relato de cada sessão. É esse sigilo que permite ao adolescente falar com sinceridade. Em situações de risco, a lei e o Código de Ética preveem limites ao sigilo, para proteger o adolescente. Em geral, esse combinado é feito no início, com os pais e o adolescente juntos.

Há situações, porém, que não esperam a próxima consulta.

Quando é urgente

Ansiedade e depressão andam juntas com frequência, e o suicídio está entre as principais causas de morte de jovens, segundo a OMS. Fique atento se o seu filho:

  • se machuca de propósito (autolesão);
  • procura ou planeja formas de se machucar, ou fala em planos para morrer;
  • fala em querer morrer, em não ter saída ou em ser um peso para os outros;
  • se despede de pessoas ou dá objetos pessoais;
  • muda bruscamente de humor, sono ou alimentação;
  • se isola, perde o interesse por tudo ou passa a usar mais álcool ou drogas.

O instituto de saúde mental dos Estados Unidos pede atenção redobrada quando o sinal é novo ou está piorando.

Se tiver dúvida, pergunte com calma e diretamente: “Às vezes você pensa em se machucar ou em não estar mais vivo?”. Estudos que fizeram essa pergunta a adolescentes e adultos mostram que ela não aumenta esses pensamentos e pode até diminuí-los. Ouça sem sermão.

Se ele disser que sim, agradeça por ter contado e não espere a próxima consulta. Procure avaliação no mesmo dia: o psicólogo ou o médico que já o acompanha, a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou o pronto-socorro.

Se houver risco imediato, não deixe o adolescente sozinho, afaste remédios e outros meios de se machucar e ligue para o SAMU, 192. Para conversar, o CVV atende pelo 188, de graça e 24 horas por telefone. Também há chat em cvv.org.br, em horários definidos. Há tratamento, e muitos jovens que passam por isso melhoram.

Dúvidas frequentes

Ansiedade na adolescência é normal?

Sentir ansiedade é normal e esperado nessa fase. O que não deve ser tratado como “fase” é a ansiedade intensa, que dura semanas e prejudica a rotina. Nesse ponto, as fontes oficiais recomendam avaliação. Veja O que é esperado da idade.

Quais são os 3 lutos da adolescência?

A expressão vem da psicanálise. Nos anos 1970, a psicanalista argentina Arminda Aberastury, em livro escrito com Mauricio Knobel, descreveu a adolescência como um período de três “lutos”. Luto, aqui, é o trabalho de se despedir de algo que ficou para trás. São três despedidas: do corpo de criança, do papel e da identidade de criança e dos pais da infância, vistos antes como perfeitos. É uma leitura teórica, e não um diagnóstico nem um dado de pesquisa. Ela ajuda a entender por que oscilações de humor e algum afastamento dos pais são esperados. Mas não deve ser usada para dispensar a avaliação de uma ansiedade que paralisa e faz sofrer.

Meu filho não quer fazer terapia. E agora?

Respeite o tempo dele, mas não desista. Você pode buscar orientação para você. Num estudo, mudar a forma como os pais respondem à ansiedade ajudou crianças e adolescentes de até 14 anos, mesmo sem o filho ir às sessões. Isso também mantém a porta aberta para quando ele quiser ajuda. Se houver sinais de risco, não espere: veja Quando é urgente.

Qual é a idade mais afetada pela ansiedade?

Não existe uma única idade. Os transtornos de ansiedade costumam começar cedo: cerca de metade dos casos aparece antes dos 18 anos. Nos dados da OMS, a ansiedade é um pouco mais comum dos 15 aos 19 anos do que dos 10 aos 14.

O que a pesquisa diz, e o que ainda não se sabe

Bem estabelecido: a TCC é o tratamento psicológico com mais evidência para ansiedade em adolescentes. A acomodação dos pais está associada a ansiedade mais grave. Num ensaio controlado com crianças e adolescentes de 7 a 14 anos, ensinar os pais a reduzi-la ajudou tanto quanto a TCC com o filho. Perguntar sobre suicídio não aumenta os pensamentos suicidas.
Ainda em aberto:

  • Se as redes sociais causam ansiedade em adolescentes, ou se a relação é mais complexa: hoje, as associações encontradas são pequenas e variam de pessoa para pessoa.
  • Se o tratamento só com os pais funciona também para adolescentes mais velhos, acima de 14 anos.
  • Quantos adolescentes brasileiros têm transtorno de ansiedade: os estudos nacionais medem sintomas por questionário, e não diagnósticos.

Onde buscar ajuda

  • Emergência: SAMU, 192, UPA ou pronto-socorro.
  • Pensamentos de se machucar ou de não querer viver: CVV, 188: gratuito, sigiloso e 24 horas por telefone. Também há chat em cvv.org.br, em horários definidos. É apoio emocional e não substitui tratamento.
  • Avaliação: pediatra, UBS (posto de saúde) ou psicólogo que atenda adolescentes. Em quadros graves e persistentes, o Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi). Veja onde procurar, inclusive sem pagar.

Quer conversar sobre isso?

Se você quer conversar sobre o atendimento do seu filho ou sobre como apoiá-lo em casa, fale com Romil para saber como funciona.

Conversar pelo WhatsApp

O WhatsApp não é canal de emergência: em crise, ligue 192 ou 188.

Autor: Romil Costa da Silva — Psicólogo, CRP 13/12420 · Conheça o psicólogo
Publicado em: 08/10/2026
Como este texto foi feito: Elaborado com apoio de ferramentas de inteligência artificial, a partir das diretrizes e dos estudos listados abaixo, sob responsabilidade de Romil Costa.
Conteúdo informativo. Não substitui uma avaliação individual.

Fontes

Órgãos de saúde, diretrizes e normas

Estudos

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